Mendigo de Deus

Mendigo de Deus (40)

É com alegria que a Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) disponibiliza a versão on-line do livro Um Mendigo de Deus para todos aqueles que querem conhecer um homem que doou sua vida pelo próximo: Padre Werenfried van Straaten. O início do "pequeno diário" do padre Werenfried, no qual constatamos as inquietudes de um jovem inconformado com as injustiças de seu tempo. Tendo experimentado as amarguras e atrocidades da II Guerra mundial, não aceitou assistir a tudo aquilo com um mero expectador e, diante da situação inumana a que milhões de pessoas foram sujeitadas, ele assumiu a dor, causa e necessidade de toda aquela gente. Com essa atitude, ele reconhece, na pessoa de milhares de irmãos que sofrem no corpo e no espírito, o Cristo abandonado e sofredor e fundamenta sua vida no evangelho que diz: "... todas as vezes que o fizestes a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes" (Mt 25,40). Como resultado disso tudo, ele tornou-se um dos maiores pedintes - Um mendigo de Deus - em favor daqueles que padecem.

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Sou sacerdote, religioso, mas raras vezes estou em minha abadia. Já faz alguns anos que vago por países onde Deus chora ou estou à procura de pessoas que desejam me ajudar a enxugar as lágrimas de Deus. Esta é uma estranha vocação. Também seus antecedentes são singulares. Mas, ao olhar para trás, vejo na minha vida uma linha reta que tudo atravessa rumando para Deus.

Deus me confiou uma tarefa difícil e, para isso, teve em conta as minhas fraquezas. Muitas vezes me pôs diante de dificuldades insuperáveis para depois ele mesmo solucioná-las. Concedeu a Satanás grande liberdade, mas jamais lhe permitiu destruir nossa Obra. Às vezes, exigiu de mim sacrifícios que me pareciam sem sentido, mas justamente aí me inundou com sua benção. Despertou uma confiança ilimitada no meu coração, sem nunca decepcionar. E quando eu não via saída alguma, provava-me que era ele mesmo quem condizia nossa Obra.

Em 1934, com outros treze postulantes, tomei hábito em Tongerlo, Bélgica. Ajoelhamo-nos humildemente no chão da sala do capítulo e invocamos a "misericórdia de Deus e do abade, e o acolhimento na comunidade desta abadia". Recebemos a tonsura. Junto com o hábito branco de são Norberto, o abade nos revestiu do "novo homem", "criado segundo a imagem de Deus na justiça e na verdadeira santidade". Em seguida nos foram dados nomes novos, como sinal de que deveríamos dar início a uma vida toda nova. Nomes de Santos, que deveriam nos acompanhar com seus exemplos e sua intercessão no caminho estreito para os céus. Recebi o nome de "Werenfried".

Muitos me atribuem virtudes que não possuo. Na realidade, sou apenas um servo inútil que diariamente se surpreende com o bem que Deus faz através dele.

Vocês sabem que sou sacerdote e que meu trabalho para a Ajuda à Igreja que Sofre* é de cunho sacerdotal. Sabem que, em primeiro lugar, não queremos salvar o corpo, mas sim a alma; que não somos encarregados, antes de tudo, de sanear a economia, mas, sobretudo, de sanear a vida de Cristo nos corações das pessoas; que não fomos chamados a desencadear revoluções, mas sim a ensinar a todos os povos o que o Senhor nos confiou: que devemos antes de tudo procurar o Reino de Deus e que tudo o mais será dado por acréscimo (cf Mt 6,33; Lc 12,31).

Senhor, estou à tua porta e bato. A todas as janelas de tua casa chamo e peço...

Durante minha vida inteira lutei em favor do amor num modo dilacerado, onde dois terços da humanidade vivem na mais profunda miséria. Em todos os tons de voz repeti a mensagem de João: "Se alguém possui os bens deste mundo, e vê seu irmão passar necessidade e se fecha a toda compaixão, como permaneceria nele o amor de Deus?" (1Jo 3,17).

Visto que o Reino dos Céus, conforme a Palavra de Jesus, está aberto a pessoas com um só olho ou uma só mão, estou realmente convencido de que até mesmo um Werenfried estropiado pode ser útil aos planos de Deus...

Quero confessar honestamente que a vida de cigano às vezes me é penosa.

Deus, agradeço-te pela minha eleição ao sacerdócio, pela tua proteção e providência, pelos amigos e colaboradores que puseste ao meu lado, pelas alegrias que me deste e por todas as dificuldades que não me foram poupadas.

Fundei minha obra depois da guerra, inicialmente a fim de ajudar os alemães banidos de sua pátria, mais tarde também os refugiados de todo o mundo. Seguiu-se a ajuda à Igreja perseguida. Pudemos ajudar praticamente em todos os países do bloco comunista, e hoje somos, de certa forma, especialistas nesta área.

No princípio, o Espírito de Deus pairava criador sobre as águas, e tudo era muito bom. Se tirarmos do homem o seu espírito, ele deixará de ser homem. Será uma carcaça ou uma fera, diante da qual nos precavemos ou que até aprisionaremos num manicômio. E se expulsarmos da sociedade o Espírito de Deus, que tudo conduz e tudo anima, o mundo retornará ao caos. A criação será uma fera demente que devora seus próprios filhos. A noite se abaterá sobre a Terra. Chegamos  a este ponto.

Haverá glória a Deus quando todos os seus filhos o amarem como Pai, e a paz na terra só será possível quando nos amarmos uns aos outros. Os pecados de Adão e Caim provocaram a ruptura com Deus e semearam inimizade entre os homens. A missão de Jesus foi restabelecer o amor a Deus e a unidade entre os homens. Ele o fez de maneira tão eminente que Deus, por sua causa, se reconciliou conosco e nos fez seus filhos.

Quando vocês olharem para o céu noturno nas semanas que antecedem o Natal, pensem na estrela que, por ordem de Deus, apareceu no firmamento no momento oportuno a fim de indicar aos três Reis Magos o caminho para o Menino Jesus, e pensem no anjo que se apressou para Belém a fim de anunciar aos pastores o nascimento do Salvador.

Logo será Natal. O resplendor da árvore de Natal e as antigas canções que ressoam no presépio e no rádio lembrarão a vocês a inesquecível história de Maria e José que, por causa do capricho de um imperador, tiveram de viajar durante o inverno através de uma região montanhosa para Belém, onde não havia mais lugar para eles na hospedaria. Assim começou a história da nossa salvação.

A festa de Natal, para a qual a Igreja nos prepara com a liturgia do advento, não é nenhum dia de romantismo sentimental, mas sim a festa régia do Deus todo-poderoso, que contou o tempo e finalmente vem redimir seu povo. Apesar de o messias se apresentar inicialmente na forma de uma criança indefesa, Herodes o considerou suficientemente perigoso para mobilizar contra ele o seu exército.

Então é de novo Natal! Uma Noite Santa sem Maria, que foi acolhida no céu. Sem José, que morreu há quase dois mil anos. Sem os anjos cantando louvores, pois o universo está tomado por foguetes e satélites. Sem boi nem jumento, que não cabem mais no nosso tempo completamente motorizado. Sem pastores no campo, pois somente soldados em manobras e mendigos ainda pernoitam no relento. Portanto, não se trata mais de uma festa natalina tradicional! Somente a pobreza e o frio ainda estão aí... e Herodes, que quer matar a criança. Se é que haverá uma criança...

A Igreja em nosso tempo clama mais alto do que nunca: Vinde Senhor, e liberta-nos! Neste clamor ela empresta sua voz a todos os que anseiam por libertação. Quem experimentou a guerra e a ocupação sabe o que significa libertação: o dia da independência recuperada, o dia em que as odiadas fardas desaparecem; mas também, o dia do grande ajuste de contas pelas paixões liberadas, pelas casas queimadas, pelas mulheres violentadas e pelos juízes covardes. Muitas vezes, uma embriaguez que, na pálida luz da manhã seguinte, se revela uma ilusão...

Um novo ano, que é nos dado por Deus, é um espaço vazio que nós mesmos temos de preencher. Em primeiro lugar, não é mais importante o que ele nos traz, mas o que nós fazemos dele. É semelhante à moldura de um quadro, que teremos um ano para pintar. Um quadro, possivelmente de cores alegres, claras, mas onde não podem faltar porções escuras, pois um quadro sem sombras não existe.

Um novo ano começou - um ano da Historia mundial e um ano de pequenos fatos que acontecerão a cada um de nós. Uma migalha de tempo entre duas eternidades.

Ano após ano, inverno e primavera, verão e outono se sucedem no ciclo das estações. Vemos como a natureza morre para, pouco depois, renascer mais uma vez*. Já vimos isso tantas vezes, que folhas secas, árvores nuas e campos vazios não mais nos inquietam. Sabemos que, se o grão de trigo não cair na terra e morrer, ficará só; mas, se morrer, dará fruto em abundância.

Por que o seu filho não precisa morrer de fome? Por que você não perderá o emprego se for à missa aos domingos? Por que você não vive separado ou distante daqueles que ama? Eu não sei, e também você não sabe. É um mistério.

Cristo começou sua Paixão com clarividência: "Em verdade eu vos digo: um de vós me vai entregar" e, acrescentou: "Melhor fora para este homem não ter nascido" (Mt 26,21.24). Este homem foi o mesmo que se irritou quando Madalena ungiu os pés de Jesus: "Por que não se vendeu esse perfume por trezentos denários para dá-los aos pobres?" (Jo 12,5).

Jesus abandonado, completamente só na cruz, entre o céu e a terra, salvou a todos nós. Somente se o amarmos e a ele estivermos unidos teremos o resgate dos nossos pecados e a chave do Reino dos Céus. A unidade com ele deve ser, pois, para nós mais valiosa que todos tesouros da terra.

Aleluia! Cristo ressurgiu realmente. Este é o dia que o senhor fez para nós. Alegremo-nos e nele exultemos. Aleluia, aleluia, aleluia!

Devemos procurar o Cristo vivo, como as mulheres que, na manha da Páscoa, foram ao seu túmulo. Também a nós os anjos dizem: "Por que procurais o Vivente entre os mortos?" (Lc 24,5). Não, não procurem a Vida entre os mortos, entre os que não possuem e estão enterrados no túmulo do próprio egoísmo.

No plano divino da Salvação, Maria ocupa um lugar extraordinário. A redenção do gênero humano começa em seu regaço virginal e só se completará, segundo a vontade de Deus, com a sua colaboração e a sua intercessão. As honras com que ela é coberta pela Igreja encontram fundamento nesta sublime eleição de Deus.

Para nos conduzir ao amor, Deus nos amou primeiro e demonstrou seu amor na vida, no sofrimento e na morte de Cristo. E, embora o Senhor tenha ressuscitado do túmulo para voltar ao Pai, ele quer permanecer na Terra em uma nova forma humana - a nossa - para multiplicar o seu amor, para atrair todos a si e para caminhar por este mundo em milhões de pessoas.

Pedro, João e todos os discípulos tornaram-se, na primeira festa de Pentecostes, homens novos: um com Cristo e em misericórdia entre si. Eles receberam o seu amor. Por isso nada mais temiam. Sabiam que eram fortes.

Paulo escreve: "Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!" (1cor 9,16). A palavra Evangelho significa Boa Notícia. O resumo desta notícia é: amor a Deus e ao próximo. É a mensagem que o Senhor anunciou com sua vida e com sua morte. Ai de mim, dizia Paulo, se eu não pregar essa mensagem.

Na Santa Eucaristia, recebemos Cristo na forma de pão e vinho. Nos pobres que encontramos, nós O recebemos em forma e carne e sangue. É o mesmo Cristo.

Nossos irmãos perseguidos constituem a elite da Igreja. Ser solidários com eles é uma questão de honra, pois no Corpo Místico de Cristo constituímos com eles uma unidade sobrenatural, mais profunda e mais forte que qualquer tipo de vínculo natural.

Deus é amigo dos pequeninos. Por mais que nós possamos nos comover quando descobrimos, nos olhos de uma criança, um vestígio do paraíso perdido, não é nada em comparação com o que o Senhor sente quando vê a pureza do próprio ser refletida nos olhos delas.

Cristo se recusa a pertencer ao passado. Ele quer ser mais do que uma sombra, saída de uma parábola de dois mil anos atrás. Quer ser nosso contemporâneo. Quer continuar vivendo na sua Igreja.

"Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado isso aos sábios e aos inteligentes e por tê-lo revelado aos pequenos" (Mt 11,25).

O amor a Cristo requer de nós que trabalhemos pela paz. Cada um de nós já buscou com todas as forças restabelecer a paz? Sem duvida, políticos e diplomatas empreenderam viagens, proferiram discursos, forjaram planos, redigiram propostas e promoveram negociações entre partes em litígio.

Na verdade, pode parecer que hoje esta prece já tenha sido antecipadamente atendida. Mas, infelizmente, isso não ocorre. De cada três pessoas no mundo, duas padecem de fome.

Cada ano, cada dia, cada hora que passa nos aproxima da morte e, esperamos, também do céu. Por isso, a divina virtude da esperança é indispensável a cada peregrino a caminho da pátria celeste.

Se algum dia Deus fizer o balanço final da sua vida, que ele possa se lembrar sorrindo de que também o seu amor cobre uma multidão de pecados e que ele pode perdoar-lhe, porque você muito amou. Pois o amor é o maior mandamento, e você, por sua natureza corrompida, por predisposição ou influência dos outros, é fraco e indefeso na tempestade de muitas tentações...

Cristo proclamou seu reino quando esteve diante de Pilatos como um vencido e aniquilado. Os seus o haviam abandonado. Judas o havia delatado. Pedro o havia renegado. Completamente só, bradou ao céu impassível seu clamor: "Meus Deus, por que me abandonaste?". Morreu fracassado. Mas nisso residiu sua vitória. Ele é rei na derrota.